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À
frente da Salineira há quase 25 anos, Francisco Geraldo Gavinho
começou sua carreira como office boy aos 13 anos. O empresário
foi o entrevistado do programa Raio x Lagos, exibido pela Rede Lagos de
Comunicação, onde falou sobre vários temas bastante
polêmicos. Um dos seus principais negócios é a Auto
Viação Salineira que gera cerca de 800 empregos diretos
na Região dos Lagos. A gratuidade nas passagens dos ônibus
e o preço das tarifas foram uns dos assuntos sobre os quais Francisco
mais falou, esclarecendo, ao contrário do que muitos pensam, que
o valor da passagem não é designado pela empresa, mas sim
por uma planilha elaborada pela prefeitura do local. O empresário
também afirmou que os estudantes da rede pública de ensino
vão continuar tendo a gratuidade nos ônibus da empresa, mas
ressaltou a necessidade do repasse das verbas dos Governos Estadual e
Federal.
Demonstrando desenvoltura, Francisco Gavinho respondeu as perguntas dos
jornalistas Alexandra Oliveira, Edinho Ferrô, Fabiane Azevedo, Rômulo
Tardelli, Sidnei Marinho e Tatiana Ribeiro com bastante segurança,
mesmo quando as perguntas eram feitas pelos telespectadores que puderam
participar pelo telefone e pelo e-mail do programa.
Início da trajetória
(...) Pra quem começa a vida como
eu comecei, tem que sonhar e acreditar para alcançar o sucesso.
Existe uma vida inteira de dedicação. Nada cai do céu;
nós temos sempre que lutar para que as coisas aconteçam.
Quando eu tinha 13 anos, vi as necessidades da minha casa, com uma família
de doze irmãos eu resolvi trabalhar e arrumei um emprego de office
boy. Ali eu vi que tinha que colocar objetivos na minha vida e que eu
tinha realmente uma carreira pela frente. E eu queria ter a certeza de
que uma pessoa pudesse fazer o que fazia de maneira igual. Nunca melhor.
Por isso eu aperfeiçôo o que eu faço sempre. Em 1983,
adquirindo a Salineira numa situação deplorável,
como uma massa falida, me dediquei à empresa. Larguei o Rio de
Janeiro e tive a honra de em 1984 ser agraciado com o título de
cidadão cabo-friense. Eu vi que isso só fez com que minha
responsabilidade aumentasse em relação ao que eu estava
me propondo a fazer na cidade. Nunca pensei que fosse um dia comprar um
jazigo. Escolhi Cabo Frio pra viver e pra morrer também –
brincou.
Preço das passagens
(...) Essa é uma boa oportunidade
para esclarecer essa questão. Quando se fala em gratuidade, não
há uma situação real sendo mostrada. Porque quando
alguém deixa de pagar uma passagem por qualquer motivo que seja,
isso recai em outro lado. Essas gratuidades são pagas por outros
e, no nosso caso, só a nossa empresa está arcando com esses
custos. Eu queria abaixar o preço da tarifa, mas as ações
precisam ser conjuntas entre governo federal, governo do estado e as empresas.
Nesse diálogo vai se conseguir chegar a um valor mais justo. Se
todo mundo abrir mão de uma parcela pequena, isso vai acabar favorecendo
ao trabalhador que paga a passagem pra ir trabalhar todo dia. O que não
pode é a empresa liberar essa gratuidade sem que haja o repasse
de verbas para cobrir esse desfalque. As gratuidades vão continuar,
mas é preciso que isso seja revisto pelos governos. Estivemos reunidos
com o Secretário de Fazenda, secretário de Educação,
com o chefe da Casa Civil e mostramos que é possível se
chegar a um acordo.
Monopólio
(...) Essa é uma palavra muito antipática. Quando alguém
fala em monopólio logo liga-se a palavra à idéia
de imposição e isso não é uma realidade no
transporte coletivo oferecido por nós. Quem diz qual o valor da
passagem, qual a linha que tem que ser feita, qual o tipo de veiculo a
ser usado, qual o intervalo de um ônibus para outro, qual a penalidade
para a empresa – é o poder concedente. A Salineira sofre
com uma mancha que veio do passado, mas hoje o nosso serviço é
olhado por pessoas de fora como um serviço padrão. Essa
visão que o povo tem não condiz com o que a gente gostaria
que fosse. Temos um padrão que já foi duas vezes renovado
e qualificado. Nossa empresa não é um monopólio porque
também seguimos regras para oferecer serviços na cidade.
Concorrência com as vans
(...) Dentro de uma empresa organizada, o motorista tem que ter carteira
‘D’, exames de vista e médicos atualizados. Nas lotadas,
existem sim pessoas que têm o propósito de trabalhar. O que
precisa é o governo ver a quem se adequa esse trabalho e treinar
pessoas para transportar vidas. Não há um compromisso por
parte do transporte que deveria ser complementar ao invés de alternativo.
O ideal seria esse tipo de transporte trabalhar junto com as empresas
de ônibus, entrando em ruas em que os ônibus não têm
acesso. Seria um transporte num sistema integrado. Há essa intenção,
mas essa medida depende de muitas coisas e uma delas é a qualificação
desses motoristas.
Lucros da empresa
(...) Nós devemos ter uma rentabilidade entre 4% e 5%. A margem
ideal fica entre 14% e 15%. O que a gente fatura é o mínimo
aceitável, podemos dizer. Do rendimento bruto da empresa nós
pagamos impostos, cumprimos com a folha de pagamento, entre muitos outros
compromissos. O lucro é todo investido na própria empresa.
Não há retirada. De todos os sócios da empresa, só
eu recebo salário. Nenhum dos sócios retira nada porque
nenhum deles depende dessa empresa pra viver. Então todos eles
acordaram entre si que essa rentabilidade seria revertida em melhorias
para a empresa. E assim é feito.
Relação com vereadores
(...) É uma relação que onde só há
obrigação. Existe por parte da empresa um respeito quanto
ao prefeito e Casa Legislativa, mas é totalmente inaceitável
que se escute dizer que tal homem é ‘vereador da Salineira’.
Isso não existe. O vereador é de Cabo Frio. A Salineira
não precisa de vereador. O que existe é que como nós
somos o maior empregador da região, eles nos procuram para pedir
emprego para alguém daquela comunidade que ele representa. É
dessa forma que eles nos procuram.
Má aceitação
da empresa
(...) A Salineira foi fundada por Alexis Novellino. Essa empresa tem raízes
em Cabo Frio. Já foi administrada por várias pessoas e isso
traz um certo desconforto porque a Salineira foi e é criticada
em Cabo Frio inteiro porque foi essa empresa que desenvolveu a cidade.
Quando você coloca um ônibus num lugar o lugar cresce. O que
era o Tangará antes de ter ônibus circulando por lá?
Nada. Hoje o lugar cresceu e isso com certeza tem ligação
com a circulação de ônibus no local. Somos importantes
para o município e para o desenvolvimento da cidade. Eu considero
que a empresa no passado errou muito em não mostrar transparência,
em deixar se falar coisas que não eram verdade e em não
estar do lado da comunidade.
Transporte irregular
(...) Em alguns lugares dentro de Cabo Frio há uma conscientização
técnica de que essa forma de transporte leva à falência
da empresa local e à desordem do transporte. Já há
uma consciência geral. Em São Paulo, Belo Horizonte e Recife
esse tipo de transporte não circula mais nas ruas. Isso porque
viram que essa não é a melhor forma. Nós da empresa
erramos em não mostrar que aquilo gerava o desemprego e desestabilização
da empresa, enquanto essas pessoas que queriam espaço e trabalhar,
ganharam espaço porque estavam desempregados. Em São Pedro
da Aldeia chegou-se ao ponto de a pessoa colocar o filho de graça
no ônibus e pagar a passagem numa van. Isso realmente pesa nas contas
da empresa quando fechamos o nosso dia.
Vans em Búzios
(...) Nós estivemos em reunião com o prefeito Toninho Branco
pedindo que a prefeitura fizesse um estudo técnico para implantação
de um sistema de integração com as vans. Dessa forma as
pessoas usariam os dois transportes. Tivemos também uma reunião
com donos de vans e essa é uma situação muito difícil.
Não vai ser em dois dias que vamos resolver isso. Mas por outro
lado, não vejo que a prioridade do prefeito de Búzios é
resolver esse problema. Eles formaram uma comissão para discutir
o assunto e tomar as medidas necessárias. Mas essa história
de formar comissão não me agrada muito. Quando se forma
uma comissão, já pode se ver que não é prioridade
de resolver. Numa comissão, cada um tem um interesse. Pela constituição,
quem manda no trânsito e no transporte é o executivo. O governo
tem que colocar o peso da autoridade para resolver as situações.
Salineira com a comunidade
(...) Esse é um orgulho para a empresa. Essa é uma forma
de nos colocarmos junto com o nosso usuário. Quando vamos a um
bairro com o projeto ‘Salineira com a comunidade’, conseguimos
saber o que devemos fazer para melhorar o serviço naquele lugar,
ficamos mais perto das reivindicações das pessoas que realmente
usam o nosso transporte todo dia. É uma prestação
de serviços em que ajudamos e oferecemos benefícios básicos
e como conseqüência, pelo contato que acontece, temos a possibilidade
de melhorar o atendimento naquele bairro.
Gratuidade para estudantes da rede
pública
(...) É necessário se discutir agora quantas passagens esses
estudantes vão ter direito. Estou garantindo que a gratuidade vai
continuar, mas não pode ser pra passear. A gente tem que evitar
a evasão escolar e se há essa facilidade de se pegar um
ônibus de graça e ficar rodando pela cidade, é preciso
que se tome uma atitude. É prejuízo para a empresa e ainda
facilita a evasão escolar. A gente precisa ter certeza de que aquele
jovem saiu de casa e foi pra escola realmente. Nós fomos falar
com os pais e diretores de escolas e eles estão de acordo com esse
limite que queremos impor e o controle da gratuidade para os estudantes
nos ônibus é uma ferramenta a ser usada contra a evasão
dos alunos. Se estamos abrindo mão da passagem deles, é
para que eles freqüentem a escola.
Demora em algumas rotas
(...) Existem problemas que são inevitáveis. Ainda não
temos vias específicas para fazer com que o transporte chegue mais
rápido e conseqüentemente diminuir os intervalos dos ônibus
nos pontos. E isso também implica na concorrência com o outro
tipo de transporte. Na verdade o passageiro procura quem passa primeiro.
Uma Towner transporta 4 pessoas, por isso estão a todo momento
passando nos pontos. Nos ônibus cabe mais gente e, claro, demora
mais. Na linha do Jardim Caiçara, por exemplo, tem uma freqüência
certa de passageiros. Já na linha do Palmeiras tem passageiro eventual.
Mas, independente disso, temos que manter dois carros fazendo cada linha.
Sabemos que os passageiros do Caiçara e Jacaré são
os que andam menos e pagam igual. São os mais prejudicados. A gente
está ciente de que precisa melhorar e estamos procurando soluções
para isso.
Uso do biodiesel
(...) Inovamos toda a nossa frota com o uso biodiesel, que é um
combustível biodegradável derivado de fontes renováveis,
que pode ser obtido por diferentes processos e pode ser produzido a partir
de gorduras animais ou de óleos vegetais. Hoje, somos a empresa
que menos polui o ar no Brasil todo. Procuramos a medida com o objetivo
de reduzir a necessidade de importação de óleo diesel
e utilizar um tipo de combustível menos poluente ao meio ambiente.
Por isso eu digo que os nossos lucros são sempre investidos na
própria empresa. Esse foi um desses investimentos.
Título de testa-de-ferro
(...) Eu não sou testa de ferro. A Salineira é uma sociedade
onde as ações estão divididas entre cinco empresários,
onde cada um tem 20%. E eu sou um deles. Eu tenho 20%, como o Sr Jacob
Barata também tem 20% e como os outros acionistas também
têm. O Sr. Jacob Barata não precisa de testa-de-ferro e a
Salineira é um dos menores negócios dele. |